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Passo a passo9 min de leiturarosca transportadoraCEMA 350agroindústriaIES Tools

Como dimensionar uma rosca transportadora: 44 t/h de arroz em casca, do enunciado ao motoredutor

A demanda chega em t/h, mas a rosca se dimensiona em m³/h. Um caso real de beneficiamento de arroz, resolvido até a especificação do redutor — incluindo a folga que o degrau comercial do redutor consome sem avisar.

Ferramenta usada: IES Tools, módulo Rosca Transportadora (CEMA 350 + ISO 7119). Conhecer →

Transportador helicoidal fechado numa unidade de beneficiamento de arroz: calha de aço pintada apoiada em pés metálicos, alimentada por uma moega à esquerda, descarregando por calha inclinada para baixo no fosso do elevador de canecas à direita, com motoredutor acoplado diretamente no eixo.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial. Não é registro de instalação real.

Dimensionando a rosca no IES Tools, passo a passo · 7 min

Quase todo dimensionamento de rosca que dá errado erra no primeiro passo, e o erro é sempre o mesmo: a pessoa recebe a demanda em toneladas por hora e começa a escolher diâmetro. A rosca não move tonelada. Ela move volume, e a massa é consequência da densidade do material.

Este tutorial resolve um caso até o fim — inclusive a parte que quase nenhuma memória de cálculo mostra, que é o redutor comercial devolvendo uma rotação diferente da que você pediu.

O problema

Unidade de beneficiamento de arroz. A moega de recebimento descarrega graneleiro, e o arroz em casca precisa chegar ao silo pulmão da pré-limpeza: 10 metros em linha reta, no mesmo nível. A pré-limpeza opera a 40 t/h e o transportador não pode ser o gargalo.

A escolha por rosca, e não por correia, vem de duas coisas: o percurso é curto e horizontal, e o material precisa correr fechado. Arroz em casca solta pó, e transportador aberto vira fonte de emissão que depois cobra um sistema de captação inteiro.

Passo 1 — A conta que vem antes do aplicativo

Arroz em casca tem densidade aparente de 570 kg/m³. Então:

40 t/h ÷ 0,570 t/m³ = 70,2 m³/h

Esses 70,2 m³/h são o número que manda no projeto. Diâmetro, passo e rotação existem para entregá-lo — e é contra ele que todo resultado vai ser comparado.

Passo 2 — Material e mancal

Tela do módulo de rosca transportadora do IES Tools com arroz em casca selecionado, densidade 570 kg/m³ e fator de material 0,50, tipo de mancal seco, e a régua de diâmetros CEMA normalizados com 400 mm marcado.
Selecionar o material já traz densidade e fator de material. O tipo de mancal muda a potência em vazio — e muda bastante.

Dois campos aqui decidem mais do que parecem.

O fator de material (MF 0,50 para arroz em casca) é o que representa a resistência que o produto oferece ao ser empurrado. Ele entra direto na potência de transporte. Chutar esse número é a forma mais comum de errar a potência por 50% para qualquer lado.

O tipo de mancal define o fator de atrito dos mancais intermediários. Trocar de mancal seco para mancal de rolamento praticamente divide por dois a potência em vazio. Num transportador curto isso é detalhe; num de 30 metros, com muitos mancais pendurados, é o que decide o motor.

Passo 3 — Diâmetro, passo, rotação e enchimento

Tela do aplicativo com rotação de 60 rpm e o limite CEMA de 130 rpm indicado ao lado, comprimento de 10 metros, enchimento de 45% com o máximo CEMA de 45% indicado, e inclinação zero.
Os limites da CEMA ficam ao lado de cada campo. O enchimento de 45% é o teto para material não abrasivo de fluxo livre.

Com passo igual ao diâmetro — o passo padrão —, tubo central de 3” Sch.40 e enchimento de 45%, uma rosca de 400 mm a 60 rpm entrega:

Resultados do aplicativo: capacidade volumétrica de 77,40 m³/h, capacidade mássica de 44,12 t/h, breakdown de potência com 0,493 kW em vazio e 2,142 kW horizontal, e o comparativo CEMA 350 de 3,10 kW contra ISO 7119 de 3,06 kW.
77,40 m³/h contra os 70,2 m³/h exigidos: 10% de folga. Guarde esse número — ele vai ser usado no passo 6.

44,12 t/h contra os 40 t/h pedidos. Parece resolvido. Não está.

Passo 4 — O aviso que decide o projeto

Painel de verificações do aplicativo: torque de 493,42 N·m, velocidade linear de 0,400 m/s, velocidade periférica de 1,257 m/s marcada em amarelo como 84% do limite não-abrasivo de 1,5 m/s, capacidade nominal CEMA em 44,2% com utilização ideal, e verificação de eixos CEMA aprovada.
O aviso amarelo não reprova o projeto. Ele diz que existe uma decisão a tomar.

A velocidade periférica está em 1,257 m/s — 84% do limite de 1,5 m/s para material não abrasivo. A conta é direta:

v = π · D · n / 60 = π × 0,400 × 60 / 60 = 1,257 m/s

Com arroz em casca, esse limite não é sobre desgaste do helicoide. É sobre quebra de grão — e grão quebrado é perda de classificação, que custa por tonelada, todo dia, enquanto o equipamento existir.

A saída é trocar rotação por diâmetro. A mesma vazão, com três combinações:

Diâmetro Rotação Velocidade periférica Do limite
400 mm 60 rpm 1,257 m/s 84%
450 mm 42 rpm 0,982 m/s 65%
500 mm 30 rpm 0,789 m/s 53%

Calha e helicoide maiores custam mais uma vez, na compra. Quebra de grão custa todos os dias. É aqui que o tutorial vira projeto de engenharia — e é a conta que leva trinta segundos no aplicativo e meia hora na planilha, razão pela qual quase ninguém a faz.

Para o resto do tutorial seguimos com 400 mm a 60 rpm, porque é o caso que expõe melhor o próximo passo.

No vídeo acima eu percorro outras combinações além dessas três — inclusive uma com passo menor que o diâmetro. Passo reduzido é recurso legítimo: ele diminui a capacidade sem mexer no diâmetro da calha, o que às vezes é exatamente o que se quer quando a estrutura já está definida.

Passo 5 — Por que o motor é 3,7 kW e não 3,10 kW

A potência calculada é 3,10 kW pela CEMA 350 — e 3,06 kW pela ISO 7119, uma diferença de 1,2%, com a CEMA saindo mais conservadora. Usa-se a maior.

Tela do aplicativo com o motor recomendado de 3,7 kW e 5 CV, folga de 19%, torque nominal de 20,2 N·m a 1750 rpm com 4 polos, e o redutor SEW K67 sugerido com relação 30,22, rotação de saída 57,9 rpm e margem de torque de 11%.
O motor é 3,7 kW porque não existe motor de 3,10 kW. A folga de 19% é resultado do degrau comercial, não uma escolha de projeto.

Aplicando a margem de seleção de 10% para acionamento direto, a potência mínima fica em 3,41 kW. O degrau comercial seguinte na série IEC é 3,7 kW (5 CV), e a folga de +19% que aparece na tela é consequência disso — não é precaução de quem dimensionou.

Esse é um ponto que rende discussão em reunião de compras: a folga não foi escolhida, foi herdada. O motor imediatamente abaixo, de 3 kW, fica abaixo dos 3,41 kW exigidos. Não há meio-termo.

Passo 6 — O redutor consome parte da folga

Aqui está o passo que quase nenhuma memória de cálculo mostra.

Para tirar 60 rpm de um motor de 1750 rpm, seria preciso uma relação de i = 29,2. O redutor SEW K67 tem i = 30,22 — o degrau comercial mais próximo. Com ele, a rotação de saída não é 60 rpm:

1750 ÷ 30,22 = 57,9 rpm   (3,5% abaixo do alvo)

E rotação menor é vazão menor, na mesma proporção:

44,12 t/h × 57,91/60 = 42,58 t/h

Ainda acima dos 40 t/h exigidos, com 6,5% sobrando. Foi para isso que serviu a folga de 10% do passo 3. Ela não era gordura: era o espaço que o degrau do redutor comercial ia ocupar. Quem dimensiona a rosca exatamente na demanda descobre isso na partida, com a pré-limpeza esperando material.

O torque também fecha por cima: o redutor entrega 820 N·m contra 736 N·m necessários — e esses 736 N·m são a potência do motor instalado a 60 rpm, com fator de serviço 1,25, não a potência calculada. Dimensionar o redutor pela potência calculada é subdimensionar, porque quem vai girar o eixo é o motor que está lá.

Passo 7 — A verificação que reprova por último

A verificação de eixos da CEMA olha duas coisas, e a segunda é a que costuma reprovar:

  • Torque: fator de segurança 6,8 contra o mínimo de 5:1, no eixo de Ø76 mm.
  • Deflexão: 1,24 mm contra o máximo de 6,35 mm (¼”), em tubo de 4” Sch.40.

Torque quase sempre passa. Deflexão é o que limita vão, e ela cresce com a quarta potência do comprimento entre apoios. É por isso que uma rosca longa não é uma rosca curta esticada: ela precisa de mancais intermediários, e cada mancal intermediário volta ao passo 2 aumentando a potência em vazio. O projeto anda em círculo até fechar.

O que este tutorial não resolve

Três coisas ficam de fora de propósito, porque dependem da planta:

Inclinação. Aqui é zero, e por isso a potência de elevação deu 0,000 kW. Rosca inclinada perde capacidade rápido — acima de 20° a queda é severa e o enchimento máximo cai junto.

Material abrasivo. O limite de 1,5 m/s de velocidade periférica vale para material não abrasivo. Para abrasivo o teto é bem menor, e a conversa de diâmetro contra rotação muda de lugar.

O que acontece na entrada e na saída. Boca de alimentação mal dimensionada afoga a rosca, e nenhuma conta de capacidade avisa isso. O transportador entrega o que a alimentação deixa entrar.

O caminho curto

Todo o percurso acima — material, geometria, rotação, potência, motor, redutor e verificação de eixos — leva cerca de dois minutos no aplicativo, e o relatório em PDF sai com a memória de cálculo aberta, pronta para anexar ao projeto.

Na planilha, leva uma tarde. E a planilha não avisa que a velocidade periférica está em 84% do limite.

Tem um equipamento, uma norma e um prazo?

Conte o problema em duas linhas. Você recebe uma resposta técnica — não um orçamento genérico.